A enfermagem e a segurança do paciente

Por Aline Natália Domingues, Thais Cristina Lurenti, Profª Drª Eliane S. Grazziano e Profª Drª Silvia Helena Zem-Mascarenhas.

A segurança do paciente envolve todos os profissionais da área de saúde e tem relevância significativa na área de assistência à saúde, tornando-se um requisito fundamental na gestão de qualidade, e, portanto, relacionada aos processos desenvolvidos nas instituições para o atendimento ao paciente.
Pacientes em todo o mundo, inclusive no Brasil, estão sujeitos a erros de assistência na saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que um em cada dez pacientes possa ser vítima de erros e eventos adversos durante a prestação de assistência à saúde no mundo e que medidas de prevenção precisam ser adotadas para reverter esse panorama.
Florence Nightingale, precursora da enfermagem, dizia ser dever do hospital “não causar mal ao paciente”. Em 1863 essa importante enfermeira já tinha a visão de que podiam ocorrer erros na assistência ao paciente. Percebe-se que a segurança do paciente sempre foi uma tônica integrante da profissão de enfermagem e, na atualidade, a preocupação com este tema volta à tona.
O enfermeiro é o profissional responsável pelo planejamento das ações de enfermagem no que diz respeito à disponibilização de recursos materiais adequados e seguros, como também na capacitação da equipe e promoção de condições tanto ambientais como de trabalho adequadas para a realização do cuidado, garantindo segurança para o paciente (Bohomol, 2002).
A segurança do paciente vem recebendo grandes destaques em pesquisas por estar diretamente associada à assistência dos profissionais de saúde. O relatório “To err is human: building a safer ­health system” do Institute of Medicine (EUA) publicado em 1999, com base em estudos realizados no Colorado, Utah e Nova York, aponta que das 33,6 milhões de internações realizadas no ano de 1997, em hospitais dos Estados Unidos, por volta de 44 mil a 98 mil americanos morreram devido a problemas causados por erros na medicação (Kohn et al., 2000).
A partir deste estudo surgiu a Era da Segurança do Paciente, mobilizando diversas instituições internacionais, para tornar o processo de assistência na saúde mais seguro. Em 2004, a OMS lançou a Aliança Mundial para a Segurança do Paciente e identificou seis metas para atuação, entre elas, o desenvolvimento de “Soluções para a Segurança do Paciente”. Ainda naquele ano, a The Joint Commission, importante organização de certificação de qualidade em assistência médico-hospitalar, foi designada como o Centro Colaborador da OMS em “Soluções para a Segurança do Paciente”, tendo como papel a formulação de metas.
No Brasil, a preocupação com esse tema teve início em 1999, tendo sido criado, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), o programa de segurança sanitária dos produtos e serviços com a finalidade de proteção e promoção da saúde. Após isto, graças à necessidade da ANVISA de obter informação qualificada sobre o desempenho dos produtos de saúde, criou-se a Rede Brasileira de Hospitais Sentinela
As metas internacionais para a Segurança do Paciente identificadas foram:
• Identificação correta dos pacientes
• Comunicação efetiva entre os membros da equipe de saúde
• Segurança dos medicamentos
• Prevenção de erros em cirurgias
• Redução do risco de infecção associado aos cuidados de saúde
• Redução do risco de lesões ao paciente em decorrência de queda.
Dessa forma, por estar diretamente oferecendo assistência ao paciente, a Enfermagem, deve oferecer um cuidado seguro, livre de qualquer dano ou evento adverso durante seus cuidados, identificando no sistema de saúde as possíveis falhas, tornando-se uma busca contínua de soluções que visem um cuidado efetivo e seguro.
Em pesquisas realizadas nos Estados Unidos foi identificado que o erro na área da saúde é a oitava causa de morte entre os norte-americanos. Estima-se que essa situação no sistema de saúde seja semelhante em todo o mundo. O erro acontece devido a uma falha no sistema.
Quando o erro ocorre é preciso verificar quais são as causas, o funcionamento do processo na assistência e, principalmente, buscar soluções para que não aconteça novamente. A punição leva a omissão do erro propiciando novas ocorrências, sem melhorar a assistência.
No Brasil, a Rede Brasileira de Enfermagem e Segurança do Paciente (Rebraensp), criada em 2006, está presente em todo o país por meio dos Pólos de Enfermagem e Segurança do Paciente.
O Conselho Regional de Enfermagem do Estado de São Paulo (gestão 2008–2011) criou o Programa de Segurança do paciente. O desenvolvimento do programa ocorreu com a participação de enfermeiros assessores da Câmara de Apoio Técnico (CAT) e conselheiros e em parceria com a Rebraensp e com diversas lideranças na área, como docentes das Escolas de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo, da Universidade de São Paulo, enfermeiros da gestão e da assistência.
As metas estabelecidas foram as seguintes:
• Identificação do paciente
• Cuidado limpo e cuidado seguro – higienização das mãos
• Cateteres e sondas – conexões corretas
• Cirurgia segura
• Sangue e hemocomponentes – administração segura
• Paciente envolvido com sua própria segurança
• Comunicação efetiva
• Prevenção de queda
• Prevenção de úlcera por pressão
• Segurança na utilização de tecnologia.
Devido à necessidade em nível nacional de formar instituições preocupadas com a Segurança do Paciente, as pesquisas tornam-se uma grande tarefa para os profissionais de Enfermagem. Estes, como membros da equipe de saúde, estão em uma busca sólida para identificar as falhas no sistema e criar novas estratégias efetivas para solucionar os problemas que colocam em risco a saúde do paciente.
O Pólo de Segurança do Paciente São Carlos, foi criado em outubro de 2010, sob a coordenação da Profª Drª Sílvia Helena Zem-Mascarenhas e outros membros, com o objetivo de esclarecer e disseminar os conceitos voltados para a segurança do paciente, identificando estratégias para viabilizar a concretização de ações que envolvam a segurança do paciente, tornando o cuidado em saúde e em enfermagem mais seguro.
Com a formação do Pólo de Segurança do Paciente São Carlos-SP são realizadas reuniões mensais que ocorrem alternadamente nas instituições de atuação dos membros do Pólo. Nessas reuniões são discutidos assuntos referentes à segurança do paciente, com o intuito de auxiliar na capacitação de enfermeiros de instituições de saúde e de ensino de São Carlos e região para a promoção da segurança do paciente seguindo as recomendações da OMS e da REBRAENSP e as metas internacionais para a segurança do paciente. Os encontros e as atividades desenvolvidas têm como meta reunir profissionais e acadêmicos para atualização de conhecimentos e reflexão sobre as experiências e situações vivenciadas na prática da assistência de enfermagem e da saúde, com o intuito de promover acesso equitativo e universal às fontes de informação técnico-científico sobre o tema.
Também é um espaço de troca de experiências sobre as iniciativas que estão sendo instituídas para a segurança do paciente nas instituições e de desenvolvimento de ações estratégicas para a promoção da segurança no cuidado e para a criação de comissões de segurança do paciente nos serviços de saúde.
Pretendemos potencializar, desta forma, o desenvolvimento de investigações multicêntricas, proporcionando visibilidade à situação e à ocorrência de danos que comprometam a segurança do paciente, e, também, compartilhar o conhecimento com a divulgação sobre o tema pelo Pólo de Segurança em Enfermagem São Carlos-SP.

Referências
BOHOMOL, E. Erros de Medicação: causas e fatores desencadeantes sob a ótica da equipe de enfermagem. [Dissertação]. São Paulo: Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de São Paulo; 2002.
COREN-SP. Conselho Regional de Enfermagem do Estado de São Paulo. Programa Segurança do Paciente do COREN-SP. Disponível em: http://inter.corensp. gov.br/node/4908. Acesso 12 fevereiro 2012.
KONH, L.T.; CORRIGAN, J.M.; DONALDSON, M.S. A comprehensive approach to improving patient safety. In: Konh LT, Corrigan JM, Donaldson MS. To err is human: building a safer health care system. Washington (DC): Institute of Medicine, 2000. p:17-25.

Aline Natália Domingues
Aluna do Curso de Enfermagem da UFSCar
Voluntária/Polo São Carlos de Enfermagem para Segurança do Paciente/REBRAENSP.

Thais Cristina Lurenti
Aluna do Curso de Enfermagem da UFSCar.
Bolsista ProEx/Polo São Carlos de Enfermagem para Segurança do Paciente/REBRAENSP

Profª Drª Eliane S. Grazziano
Coord. do Curso de Enfermagem da UFSCar.
Membro do Polo São Carlos de Enfermagem para Segurança do Paciente/REBRAENSP.

Profª Drª Silvia Helena Zem-Mascarenhas
Chefe do Dep. de Enfermagem da UFSCar.
Coordenadora do Polo São Carlos de Enfermagem para Segurança do
Paciente/REBRAENSP.